SOBREVIVENTE DO MASSACRE DE ELDORADO DO CARAJAS PA
Depoimento de Avelino
Germiniano - SOBREVIVENTE
Depoimento de
Avelino Germiniano, 51 anos
Como você
lembra do Massacre?
Nós estávamos caminhando para Marabá (PA) para pegar o
ônibus para a sede do Incra, porque já estávamos muito cansados. Vínhamos do km
30 e as crianças que acompanhavam já não estavam agüentando mais a viagem. Por
isso resolvemos parar a marcha e interromper o trânsito para arrumarmos um
transporte. Por volta de 4h00 chegaram os policias falando que iam arrumar um
transporte. Em seguida, atravessaram aquele caminhão para o lado de Marabá...
Foram eles
que atravessaram aquele caminhão?
Foi, aquilo já era combinado. Eles atravessaram aquele
caminhão para, em seguida, se proteger com ele. Então chegou um oficial de
Marabá dizendo que já estava tudo combinado, que os ônibus viriam. Ficamos na
expectativa, achando que ganharíamos mesmo os ônibus. Mais ou menos às 5h00,
vimos os caminhões de Marabá e de Parauapebas. Eles chegaram dos dois lados e
nós ficamos no meio. Não tínhamos condição de fazer nada. Um monte de policiais
armados e a arma que nós tínhamos era foice e facão, machado. Nós resolvemos
não desocupar a pista. Eles deram um tiro para intimidar e já mataram um dos
nossos, o Silvinho.
O senhor viu?
Eu vi tudo. Quando eles mataram o Silvinho, não perdoaram
mais ninguém. Como eu já tinha tomado quatro tiros, fui tentando me afastar. O
que nós víamos era gente baleada, caindo morta. A alternativa era correr e me
esconder embaixo de um caro que tinha parado na pista, para ver se me protegia.
Foi onde encontramos quatro companheiros, todos baleados. Quando me deitei ali,
meu filho estava junto, os policiais me pegaram como um dos líder do Movimento,
me algemaram e me levaram. Eu já tinha tomado nove tiros. Eu não podia mais
andar. Então eles me colocaram dentro de um ônibus de Marabá, pegaram um pau e
me bateram no ombro e na cabeça. Falaram que eu tinha que contar os nomes dos
líderes.
Isso dentro
do ônibus?
É dentro do ônibus. A Maria, uma repórter, estava com a
gente dentro do ônibus. Eles conseguiram ligar a filmadora e filmaram o sangue
que escorria das minhas pernas, do meu corpo. De repete, chegou um policial e
tomou a câmera deles. Ela falou para ele que se me matassem, eles iam ter com
ela. Fiquei dentro do ônibus preso, algemado, com a mão pra trás.
O senhor
tomou tiro onde?
Nas costas, no peito, na perna... Graças a deus não foi
nenhum que me ofendesse para matar. Fiquei dentro do ônibus até a hora que eu
vi que acabou. Então me botaram no ônibus de Parauapebas. O policial de Marabá
queria me matar. Às 18h00, quanto já estava escuro, ele e pegou um fuzil e
botou na minha testa. Disse “deixa esse daqui comigo”. Minha salvação foi
quando um lá de Parauapebas disse “não mata esse aí não. Tira a algema dele e
leva ele lá para dentro do ônibus”. Eu nem tinha mais movimento no braço porque
algema já estava dentro do osso. Me levaram para Curionópolis e me deixaram na
cadeia.
E nesse
período o senhor não teve nenhuma assistência médica?
Lá o delegado disse “esse aí não pode deixar vivo não”.
Eu disse que podiam me matar, não me importava mais. Chegou um pessoal de Belém
e uma mulher veio medir minha pressão e disse que precisava ser levado
imediatamente. Acho que eu tinha perdido muito sangue e minha pressão estava
baixa. Quando eu fui pro hospital, minha mulher estava lá me esperando. Mas a
primeira notícia que era que eu tinha morrido no primeiro confronto. Eu e meu
filho fomos depor do Fórum de Curionópolis e só depois de muitos dias que
começaram o tratamento em Belém.. Me levaram para lá de avião e eu fui tirando
as balas aos poucos. Até hoje eu ainda tenho três.
O senhor
consegue trabalhar bem hoje?
Não. Esse braço, por exemplo, eu não posso levantar muito.
Eu não sou mais aquela pessoa que podia sair com a foice e machado roçando pino
e madeira. Nem laçar um gado eu posso. Eu não dou conta.
Vocês
receberam alguma ajuda do governo?
Não. Há três anos vivemos de uma tutela de 300 reais do
estado. Ganhamos ela na Justiça até que a indenização fosse resolvida. Cortaram
até o tratamento médico que nós tínhamos direito. Tem gente aqui que não
consegue se movimentar direito, com problemas demais. Se não recebermos
tratamento digno, eu não sei como é que vamos fazer.
Qual o seu sentimento ao saber que hoje não tem ninguém
na cadeia por causa desse massacre?
O sentimento é que todos fomos mortos e baleados também.
Depois de tudo o que fizeram conosco não ter ninguém na cadeia... é por isso
que não podemos fazer mais nenhuma declaração sobre eles. A corda arrebenta
sempre do lado mais fraco, e nós não somos os fortes.
O senhor
acredita na justiça para esse caso?
Acho difícil. A indenização já ajudaria muito. Nunca
vamos nos recuperar, mas poderíamos melhorar algumas coisas, principalmente a
nossa saúde. Eu, por exemplo, se eu pegasse esse dinheiro, iria para fora do
estado me tratar.
O senhor
já conquistou a terra, uma casa. A luta vale a pena?
A luta é sagrada. Conseguir um pedaço de chão para quem
não tem onde sobreviver é muito importante. O Movimento mata a fome de muita
gente. Se todo mundo acreditar que vale a pena, vamos em frente que não vai
acabar por aí não.
Nenhum comentário:
Postar um comentário