EM BUSCA DA LIBERDADE
Uma grande correria estava
se dando pros lado do arraial. Eram uns a cavalo, outros a pé, e a movimentação
de pessoas num vai e vem que mais parecia que haviam tocado fogo na casa de
alguém muito importante da sociedade local.
Enquanto isso, nas
imediações do arraial - no mato - alguém desesperadamente corria procurando se
esconder como se estivesse sendo objeto de minuciosa procura.
Águém se aproxima do local
de onde vem tanto barulho, com a intenção de saber qual o motivo de tão grande
alvoroço, e pergunta para um dos transeuntes:
-
Senhor, qual o motivo de tão grande reviravolta?
-
Alguém fugiu! Alguém fugiu!
Respondeu gritando o homem
que por ali passava, e que parecia bastante preocupado com o que estava
acontecendo.
Mas, quem havia fugido? Devia
ser alguém muito importante pra compensar tão barulhenta correria nas ruas do
povoado.
No mato, alguém continuava se
escondendo nas moitas, atrás das árvores, em buracos, enfim, o medo de ser
encontrado era tremendamente grande, e isso fazia com que seus movimentos
fossem bastante rápidos e enérgicos.
- Quem
seria este que tanto procurava se esconder?
- Teria
ele alguma coisa a ver com o barulho no arraial?
- Preciso
encontrá-lo! Alguém dizia muito zangado, correndo em direção aos cavalos
amarrados em uma árvore ali perto. O homem estava tão apresado que de um salto
montou o cavalo, e saiu em disparada em direção à rua principal do arraial.
Estava muito apreensivo, pois logo a noite
cairia e, lógico, a procura seria bem mais difícil por causa da escuridão.
Muito tempo se passa. A noite chega misteriosamente com sua lua brilhante e
fria. O homem chega triste, por não haver encontrado o que procurava, mas não
desanimado. Resolveu então organizar uma busca. Chama vários outros homens, que
se armam até os dentes com a intenção de encontrar o fujão.
Tudo
está parecendo uma operação de guerra. Cães, tochas facões e mosquetes, era um
aparato grandioso para procurar o fugitivo.
-
Mateiro! Gritou alguém se dirigindo ao homem que chegara a cavalo.
-
Então aquele era um capitão-do-mato. Um homem especializado em procurar
escravos fugidos, e entregá-los novamente aos seus senhores. Isso explicava a
balburdia no povoado. Toda aquela correria. Um escravo havia fugido de seu dono
em busca da sua liberdade.
O
homem esgueirando-se por entre as árvores então é o fugitivo negro que acaba de
escapar.
Na
floresta o fugitivo continuava correndo mais depressa, agora que sentia sua
liberdade bem próxima.
Pode-se imaginar porque os escravos fugiam. Era o sonho da liberdade que
falava mais alto em seu coração. O desejo de se tornar um ser humano livre
fazia com que tomasse, com o risco da própria vida, a decisão de fugir do jugo
esmagador de seus algozes.
Liberdade era algo sonhado por todos aqueles homens e mulheres que foram
tirados de sua pátria mãe e trazidos para um mundo completamente diferente do seu.
Sonham em poder correr livremente outra vez pelos campos, sentindo a brisa fria
em seus rostos sem ter a preocupação do trabalho forçado, onde não recebiam
nada por ele, alem de mísero alimento e aposentos que de tão miseráveis não se
podia chamar de casa, mas de pocilga (senzalas).
Viver
em condições subumanas, sem ter uma identidade, sem um presente com o mínimo de
dignidade, e menos ainda com esperança de futuro, fazia com que muitos
quilombos surgissem no período colonial, e que se convertessem em varias
rebeliões na América espanhola e norte-americana.
Não
podemos esquecer que os negros escravos foram os construtores dessas
sociedades. Do ponto de vista econômico e cultural, todas estas colônias devem
e muito aos escravos.
Sabemos que o negro dentro do contexto das
transformações foram um fator importantíssimo. Pois proporcionaram o
desenvolvimento dessas sociedades marcadas por essas lutas e a esperança de
setores progressistas de superar essas desigualdades, a partir de suas bases.
Havia
em todas as colônias americanas, fugas de escravos. Os escravos do Sul dos
Estados Unidos sofriam os mesmos castigos que os escravos da América espanhola.
Eram colocados no tronco, marcados com ferro quente, e açoites no pelourinho;
os escravos do Sul defendiam-se através de sabotagem roubo, fingimento de
doenças e ataques físicos contra os feitores e os senhores.
Quando
o escravo tinha a coragem e encontrava a oportunidade, ele fugia e procurava
chegar até os Estados do Norte, onde não havia escravos, ou mesmo ao Canadá.
Esta fuga foi ajudada por uma rede de coiteiros e informantes chamada “a
estrada de ferro subterrânea”. Fugindo de noite, orientando-se pela estrela do
Norte, mais de cinqüenta mil escravos, inclusive os abolicionistas militares
Harriet Tubman, uma ex-empregada, e Frederick Douglas, um ex-calafate de navios,
assim conseguiram a sua liberdade.
Nas
montanhas do Haiti, na América espanhola, grupos de foragidos, os chamados
cimarrones, cuidavam de escapar à chibata dos plantadores. Assim, as revoltas e
fugas faziam parte dessas sociedades que eram altamente escravocratas.
SILVA. Manoel Oliveira, Em busca da liberdade, Centro
Universitário de Parauapebas (CEUP), 2009.
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