quinta-feira, 3 de maio de 2012

EM BUSCA DA LIBERDADE por Manoel Oliveira


EM BUSCA DA LIBERDADE



         Uma grande correria estava se dando pros lado do arraial. Eram uns a cavalo, outros a pé, e a movimentação de pessoas num vai e vem que mais parecia que haviam tocado fogo na casa de alguém muito importante da sociedade local.
         Enquanto isso, nas imediações do arraial - no mato - alguém desesperadamente corria procurando se esconder como se estivesse sendo objeto de minuciosa procura.
         Águém se aproxima do local de onde vem tanto barulho, com a intenção de saber qual o motivo de tão grande alvoroço, e pergunta para um dos transeuntes:
         - Senhor, qual o motivo de tão grande reviravolta?
         - Alguém fugiu! Alguém fugiu!
Respondeu gritando o homem que por ali passava, e que parecia bastante preocupado com o que estava acontecendo.
         Mas, quem havia fugido? Devia ser alguém muito importante pra compensar tão barulhenta correria nas ruas do povoado.
         No mato, alguém continuava se escondendo nas moitas, atrás das árvores, em buracos, enfim, o medo de ser encontrado era tremendamente grande, e isso fazia com que seus movimentos fossem bastante rápidos e enérgicos. 
          - Quem seria este que tanto procurava se esconder?
          - Teria ele alguma coisa a ver com o barulho no arraial?
         - Preciso encontrá-lo! Alguém dizia muito zangado, correndo em direção aos cavalos amarrados em uma árvore ali perto. O homem estava tão apresado que de um salto montou o cavalo, e saiu em disparada em direção à rua principal do arraial.
         Estava muito apreensivo, pois logo a noite cairia e, lógico, a procura seria bem mais difícil por causa da escuridão. Muito tempo se passa. A noite chega misteriosamente com sua lua brilhante e fria. O homem chega triste, por não haver encontrado o que procurava, mas não desanimado. Resolveu então organizar uma busca. Chama vários outros homens, que se armam até os dentes com a intenção de encontrar o fujão.
         Tudo está parecendo uma operação de guerra. Cães, tochas facões e mosquetes, era um aparato grandioso para procurar o fugitivo.
         - Mateiro! Gritou alguém se dirigindo ao homem que chegara a cavalo.
         - Então aquele era um capitão-do-mato. Um homem especializado em procurar escravos fugidos, e entregá-los novamente aos seus senhores. Isso explicava a balburdia no povoado. Toda aquela correria. Um escravo havia fugido de seu dono em busca da sua liberdade.
         O homem esgueirando-se por entre as árvores então é o fugitivo negro que acaba de escapar.
         Na floresta o fugitivo continuava correndo mais depressa, agora que sentia sua liberdade bem próxima.
         Pode-se imaginar porque os escravos fugiam. Era o sonho da liberdade que falava mais alto em seu coração. O desejo de se tornar um ser humano livre fazia com que tomasse, com o risco da própria vida, a decisão de fugir do jugo esmagador de seus algozes.
         Liberdade era algo sonhado por todos aqueles homens e mulheres que foram tirados de sua pátria mãe e trazidos para um mundo completamente diferente do seu. Sonham em poder correr livremente outra vez pelos campos, sentindo a brisa fria em seus rostos sem ter a preocupação do trabalho forçado, onde não recebiam nada por ele, alem de mísero alimento e aposentos que de tão miseráveis não se podia chamar de casa, mas de pocilga (senzalas).
         Viver em condições subumanas, sem ter uma identidade, sem um presente com o mínimo de dignidade, e menos ainda com esperança de futuro, fazia com que muitos quilombos surgissem no período colonial, e que se convertessem em varias rebeliões na América espanhola e norte-americana.
         Não podemos esquecer que os negros escravos foram os construtores dessas sociedades. Do ponto de vista econômico e cultural, todas estas colônias devem e muito aos escravos.
         Sabemos que o negro dentro do contexto das transformações foram um fator importantíssimo. Pois proporcionaram o desenvolvimento dessas sociedades marcadas por essas lutas e a esperança de setores progressistas de superar essas desigualdades, a partir de suas bases.
         Havia em todas as colônias americanas, fugas de escravos. Os escravos do Sul dos Estados Unidos sofriam os mesmos castigos que os escravos da América espanhola. Eram colocados no tronco, marcados com ferro quente, e açoites no pelourinho; os escravos do Sul defendiam-se através de sabotagem roubo, fingimento de doenças e ataques físicos contra os feitores e os senhores.
         Quando o escravo tinha a coragem e encontrava a oportunidade, ele fugia e procurava chegar até os Estados do Norte, onde não havia escravos, ou mesmo ao Canadá. Esta fuga foi ajudada por uma rede de coiteiros e informantes chamada “a estrada de ferro subterrânea”. Fugindo de noite, orientando-se pela estrela do Norte, mais de cinqüenta mil escravos, inclusive os abolicionistas militares Harriet Tubman, uma ex-empregada, e Frederick Douglas, um ex-calafate de navios, assim conseguiram a sua liberdade.
         Nas montanhas do Haiti, na América espanhola, grupos de foragidos, os chamados cimarrones, cuidavam de escapar à chibata dos plantadores. Assim, as revoltas e fugas faziam parte dessas sociedades que eram altamente escravocratas.         
     
         
           



























SILVA. Manoel Oliveira, Em busca da liberdade, Centro Universitário de Parauapebas (CEUP), 2009.

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