Perfil do Professor da EJA
Introdução,
As experiências humanas são construídas através do tempo. Contudo o tempo não é uma construção humana linear e progressiva. Todos nós estamos circunscritos a vários fenômenos de temporalidades diferentes. O tempo da sociedade industrial, não é o mesmo das sociedades tradicionais. Bem como o tempo dos jovens é outro se comparado à idade adulta ou à velhice.
Pensar o tempo na EJA vai além de definir uma medida. Pressupõe pensar que os sujeitos jovens e adultos estão envolvidos em várias temporalidades circunscritas à vida e não à escola. São os tempos do trabalho, das relações familiares, do cuidado com a saúde do filho, do lazer, de ir à igreja, do pagode, da afetividade, etc. Destaca-se que o tempo do trabalho firma-se como ordenador dos outros tempos da vida desses sujeitos. A partir dele é que os sujeitos articulam os outros tempos, inclusive o tempo da escola.
Considerar, portanto, a condição de trabalhador do educando da EJA é imprescindível para se configurar o tempo escolar. A flexibilidade dos processos educativos é o imperativo que se apresenta aos projetos pedagógicos das escolas. Assim, as temporalidades escolares na EJA horários duração das aulas, calendários, tratamento dado à freqüência — e a organização do trabalho, não podem ser rígidas, não podem inviabilizar o direito à educação, têm que ser inclusivas de seus sujeitos. As temporalidades escolares é que devem estar adaptadas às temporalidades dos sujeitos e não o contrário.
A educação de Jovens e Adultos não é restrita ao atendimento “escolar”. A EJA possui toda uma particularidade, para alem do “ensinar” àqueles que não concluíram (ou até nem começaram) os estudos escolares. A primeira especificidade é justamente o sujeito-educando dessa modalidade: os sujeitos da EJA, não são simplesmente definidos por características culturais:
“isto é, apesar do corte pela idade (basicamente não-crianças) esse território da educação diz respeito a reflexões e ações educativas dirigidas a qualquer jovem e adulto, mas delimita um determinado grupo de pessoas relativamente homogêneo no interior da diversidade de grupos culturais da sociedade contemporânea”.
De acordo com SCARAMUSSA (2006), a EJA no Brasil se constitui muito mais como produto da miséria social do que do desenvolvimento da Nação. São conseqüências dos males do sistema público regular de ensino e das precárias condições de vida da maioria da população, que acabam por condicionar o aproveitamento da escolaridade na época apropriada. Uma massa considerável de excluídos do sistema formal de ensino, por se encontrar em condições de vida precárias ou por ter tido acesso a uma escola de má qualidade ou, então, por não ter tido acesso a escola, se defronta com a necessidade de realizar sua escolaridade, já adolescentes ou adultos, para sobreviver em uma sociedade onde o domínio do conhecimento ganha cada vez mais importância.
É necessário que os novos profissionais da educação façam essa desmistificação e que transforme a educação de jovens e adultos em um campo do ensino inserido no sistema que possa ser visto por todos como mais uma etapa de estudo na vida do educando.
Nesse sentido, os governos precisam assumir mais claramente uma atitude convocatória, chamando toda a sociedade a engajar-se em iniciativas voltadas a elevação do nível educativo da população. O ter desse chamado deveria completar, especialmente, a motivação para que todos continue aprendendo ao longo da vida, de que a necessidade, a vontade e a possibilidade de aprender são inerentes a todos os seres humanos, do nascimento à velhice. A aprendizagem precisa ser assim compreendida em sentido amplo, como parte essencial da vida, e o desinteresse por aprender como eloqüente prenuncio da morte. Em tal contexto cultural a educação de adulto poderia deixar de ser associado ao atraso e à pobreza e passar ser tomado como indicador do mais alto grau de desenvolvimento econômico e social.
É necessário que a sociedade tome consciência que a condição do estudante da EJA não é uma condição natural, isso se faz presente pela falta de oportunidades, ou pela própria condição econômica que vivencia o país. Em virtude disso há uma entrada precoce no mercado de trabalho nas mais variadas condições o que provoca um afastamento dessa clientela das salas de aulas regulares, o que depois de uma frustração profissional, apegam-se na necessidade de uma qualificação escolar fato que acaba por trazer novamente esse estudante para as salas de aulas, agora com uma idade incompatível com o nível de escolaridade que devia está cursando.
Embora esses alunos colecionem todas essas dificuldades não podem viver a margem da escola e:
Ao entrar em um curso de Educação de Jovens e Adultos, o estudante não estará apenas sendo alfabetizado. Isto é muito pouco para o conteúdo do direito à educação. Além da alfabetização, etapa propedêutica, o aluno deve ter acesso aos conhecimentos que todo o indivíduo que freqüenta a escola na idade convencional está recebendo. Conhecer o mundo em que vive para poder agir sobre ele com consciência crítica e efetividade, sobretudo em nosso tempo, não pode dispensar a escolaridade plena. Como Freire (1983), acredita-se que a educação de jovens e adultos não deve ser apenas simples técnicas mecânicas de ler e escrever. Nesse caso, a formação de professores para esse tipo de ensino deve ir além de treinamentos e cursos de capacitação, que os torne apenas um técnico em aprendizagem. Faz-se necessário, em contrapartida, além de teorias, o conhecimento de uma metodologia voltada para uma educação diferenciada, considerando a especificidade do universo da educação de jovens e adultos.
Assim, são tão importantes para a Educação de Jovens e adultos certos conteúdos que os educadores devem lhes ensinar quanto à competência para analisar a sua realidade cotidiana e participar, satisfatoriamente, de processos decisórios.
Em função de suas múltiplas responsabilidades frente a esta modalidade educacional específica, o educador de jovens e adultos deve fazer, regularmente, uma revisão crítica de sua própria atuação, permitindo que os principais interessados, que são os alunos, manifestem suas opiniões a respeito do que se tem construído em sala de aula, a partir desta interação entre educador e educando.
O professor entrevistado para o nosso trabalho tem múltiplas responsabilidades, atuando tanto na EJA quanto no ensino fundamental regular. Isso acarreta funções diferenciadas tornando pouco produtivo o seu trabalho. Essa maneira de trabalho, de certa forma prejudica o aluno, pois o mesmo não terá um bom acompanhamento deste educador durante o seu processo educacional.
Contrariando essa condição do educador em questão, GADOTTI (1979), afirma que a educação de jovens e adultos deve ser sempre uma educação multicultural, desenvolvendo conhecimentos prévios e fazendo sempre a integração na diversidade cultural, a qual leva o educador a conhecer bem o seu campo de trabalho, pois assim terá o conhecimento necessário para desenvolver projetos relacionados à educação com qualidade.
Para o nosso entrevistado a falta de formação específica é uma das dificuldades mais freqüente, para aqueles que trabalham com a EJA, haja vista que o programa fica sempre em segundo plano para as autoridades por se tratar de uma parte menor do contingente escolar.
Perguntado se planeja suas aulas, o professor respondeu: “Devido as diferenças de idade dos alunos tenho de fazer planejamento diferenciado para atingir pelo menos parte dos objetivos” Para Michele Guimarães o rumo da educação se muda acreditando no educando, na sua capacidade de aprender, descobrir, criar soluções, desafiar, enfrentar, propor, escolher e assumir as conseqüências de sua escolha.
A ausência de fundamentação teórica também se configura como um dos problemas enfrentados pelo nosso entrevistado, visto que ele afirma que não conhecer outro autor que discute a questão da EJA além de Paulo Freire. E isso para a alfabetização de Jovens e Adultos pode ser considerado um entrave aos trabalhos práticos. A falta de uma visão teórica mais ampla pode de certa maneira limitar as condições de trabalho do professor.
De acordo com o entrevistado, em relação ao material didático de apoio ao professor, a realidade está bem diferente de algum tempo atrás, quando este material era apenas um desejo do professor. O material que era usado pelo educador era o mesmo usado pelos alunos do ensino regular, em função do atraso da entrega do material didático da EJA. São tão importantes para a educação de Jovens e Adultos certos conteúdos que os educadores devem-lhes ensinar quanto à competência para analisar a sua realidade cotidiana e participar satisfatoriamente de processos de evolução sócio - econômico e cultural. Esse processo evolutivo dentro desta realidade agora está mais próximo, pois hoje já existe material didático especifico da EJA na escola em que ele trabalha.
Não existe para o entrevistado um processo teórico de avaliação. Para ele são utilizadas apenas as metodologias adquiridas nas formações continuadas, proporcionadas pela Secretaria Municipal de Educação, com carga horária de 6 (seis) horas mensais. E para avaliação apenas o processo contínuo (avaliação continuada).
Conclusão:
A posição ainda marginal ocupada pela EJA no interior das políticas públicas faz com que não contemos com diretrizes de formação de educadores ou com centros educativos especialmente dedicados a essa formação. É preciso identificar as especificidades que delineariam o perfil do educador de jovens e adultos, a partir das quais possam ser definidas as diretrizes de sua formação, ainda em construção.
Para o entrevistado isso pode ser encarado como uma das maiores dificuldades para o processo de ensino/aprendizagem da EJA. A falta de formação específica acarreta insegurança e senso de incapacidade neste professor que conseqüentemente não irá conseguir desenvolver o seu trabalho com perfeição.
A identidade da EJA está ainda em definição. Se essa definição se restringir a classificá-la como uma modalidade da educação escolar, permaneceremos apenas no campo da regulação, e haverá pouco espaço para considerar sua especificidade na formação dos educadores. Entretanto, se ela se definir como um campo plural de práticas educativas que não se esgotam na escola, e que se alimentam de um impulso emancipador, então a questão da especificidade se coloca de maneira decisiva para a formação dos educadores.
As questões precisam ser enfrentadas sob os aspectos quantitativos e qualitativos. De um lato, existe um contingente massivo da população cujo direito humano e constitucional não tem sido respeitado. São cidadãos e cidadãs brasileiros cujo potencial nunca foi plenamente desenvolvido.
É esse cidadão que é sempre marginalizado por sua condição socioeconômica e que tem sempre seus direitos atropelados, e são na sua maioria favelados, desempregados, negros, viciados. E que as condições sócias está muito alem da realidade do aluno do seu período normal.
MUITO BOM....
ResponderExcluirOlá Luis, este post da EJA está muito bom, estou fazendo minha monografia e pesquisando sobre este tema, "o perfil do professor da EJA" gostaria de saber as referencias q você usou para o texto e se vc tem mais algum material sobre este assunto que possa me passar. desde ja agradeço e parabens pelo texto.
ResponderExcluirmeu email: keel_campos@live.com
Legal
ResponderExcluirÓtimas referencias
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